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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Impertinência





                     Naquela mente articulavam-se planos ecléticos para um breve futuro. Seus olhos, naquele momento, observavam apenas a infinita estrada que à sua frente apresentava-se. Seus lábios cerrados e o semblante birrento mostravam a ira que trazia há tempos.
                   Seu corpo ocupava desconfortavelmente uma das poltronas de um transporte coletivo, transporte esse que o conduzia todos os dias ao seu local de trabalho. Aquele rapaz, de certa maneira, num desses trajetos à empresa na qual trabalhava, deixou transparecer um de seus desejos diversos, ou um de seus planos mutáveis que até aquele momento era oculto; desejava ele no seu transporte, em alta velocidade, capotar por diversas vezes e depois explodir. Todos ao conhecerem seu desejo absurdo passaram a repudiá-lo.
                   Numa quinta-feira fria de agosto, naquele labirinto de concreto que era a sua cidade com prédios imensos, cheia de antenas e redes elétricas, numa longa avenida congestionada, com buzinas atordoando os tímpanos, vinha lentamente um coletivo lotado e nele havia um rapaz ranzinza, solitário, sentado desconfortavelmente numa poltrona. Parecia nesse momento que o coletivo encontrava-se vazio, pois, nenhum ser humano dirigia-se àquele solitário desconfortável da poltrona dianteira. Em sua mente com certeza passavam planos ou desejos macabros.
                   E de súbito, ao tentar cruzar a linha férrea, aquele coletivo foi atingido violentamente pelo trem cruel; pedaços do ônibus espalharam-se naquela extensa avenida.
                   – Todos mortos! – Disse um dos curiosos que ali observavam o acidente. Depois que muito analisaram, um sujeito foi visto desconfortavelmente levantando-se do esgoto, era ele, sujo e resmungando:
                   – Vou chegar atrasado, droga!



                                                                           (Majal-San)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Vinte Minutos



                   Terça-feira. 4h20min. Acordo. Teria eu mais vinte preciosos minutos de sono, ou, de cochilo. Os restos dos galos, frangos, alguns galináceos cantam, cacarejam nos quintais vizinhos. Eu teria mais vinte minutos preciosos para descansar minha carcaça. Meu garoto mais novo, acordo com o seu choro. Deveríamos entrar em acordo noite passada: não me acorde vinte minutos antes. Ainda com os olhos pregados saio da cama, no tato – as sandálias. Vou ao banheiro. No tato – a escova dental. Água na cara, quase desperto. Lembro que hoje terei novamente outros garotos, não são meus de fato, às vezes parecem ser. A preocupação, ou preocupações invadirão novamente minha mente. Não deveria ter. Não deveria ter tais preocupações? Às vezes as tenho – fato.
                   100 km. São aproximadamente cem quilômetros que me separam da minha dor de cabeça. Em alguns instantes estarei lá. Ela (minha dor de cabeça) já se encontra aqui. Aqueles galos não estarão lá. O choro do meu garoto mais novo não estará lá. E lá, não gastarei vinte minutos no banheiro.
                   O transporte chega. Pouco espaço. Mínimo espaço para as minhas longas pernas. Conversas longas. Assunto chato aos meus ouvidos. Silêncio irritante – insatisfação. Na mente uma prece cuidadosa: que seja uma viagem tranquila. Mente incrédula, medo constante. Ao iniciar a viagem vem um desejo de que apenas vinte minutos, no máximo, seja a duração dessa jornada – impossível. Os diálogos sobre a última rodada do campeonato de futebol, o monólogo de um senhor quase centenário (passageiro assíduo), e as “músicas” que tocam nesse transporte fazem parecer que esse percurso é de vinte horas.
                        Finalmente chegamos! Depois de uma hora e vinte minutos.
                  Meus garotos me aguardam. Alguns eu desejaria que não estivessem à minha espera. Espera inútil. Pegarei agora minhas ferramentas (a maioria trago em minha mente). Entrarei agora no meu local de trabalho. Meu ofício não levará apenas vinte minutos.


                                                                           
                                                                  

sexta-feira, 6 de julho de 2012

ENSAIO

         

         Assim que os ponteiros se encontraram, naquele final de noite, Manoel saía de casa (era um renomado padeiro) com destino ao seu trabalho. Um longo caminho escuro, estreito e perigoso ele tinha que percorrer. Entre transeuntes madrugadores, algazarra de pandilheiros, Manoel tinha que caminhar. Ao chegar em frente da panificação de paredes amareladas (um prédio sombrio), retira do seu bolso um molho de chaves e abre a porta. Ele entra e coloca um avental branco, quase branco. Os ingredientes são escolhidos e postos à mesa (amido, farinha, sal, fermento, etc.), a labuta dá-se início. Num certo momento Manoel está espalhando a massa já preparada. Mexe, mistura, mexe e mistura. E nada de chegar ao ponto a massa da qual sairia os pães da manhã que se iniciava. E tenta. Mexe a massa, mistura, adiciona açúcar, água, sal, e parece que tudo está contra Manoel. Parece ter vida aquela massa rebelde que não atende os desejos do padeiro, o padeiro que queria finalizar o seu trabalho, ou melhor, iniciar a sua obra.
         Cinco horas da manhã, terça-feira. Decepcionado, Manoel não conseguiu fazer os pães, os bolos, sequer um biscoito. O que teria acontecido com a massa indomável? Os assíduos fregueses esperavam inutilmente à porta da panificação. A porta continuou fechada, a causa, a falta da principal mercadoria matinal, o melhor pão da cidade. Nesse dia não houve expediente na mais conceituada e movimentada panificação.
         Tarde eufórica no outro lado da cidade. Jaime, sua equipe de jogadores de futebol e todos os torcedores daquele clube vibram interminavelmente. Desmedida é a confiança de que o melhor time do campeonato será campeão. Invicto, com o artilheiro da liga profissional, com grande destaque desde o início da competição, esse time tinha que ser consagrado campeão. Então, durante o último treino coletivo, o treinador, convicto, seleciona os seus melhores atletas. "Os onze principais" são escalados para o jogo da decisão.
         O time adversário chega à decisão como “zebra” (termo futebolístico), esse é mais um motivo da certeza da vitória rondar a mente dos componentes do clube dirigido por Jaime. Os cronistas esportivos já deixavam estampadas nas colunas dos jornais matérias enfatizando a certa conquista da equipe de Jaime. A torcida agitada e confiante grita:
         -É CAMPEÃO! É CAMPEÃO!
         A equipe inimiga, visitante e inferior é a primeira a entrar em campo, como já era de se esperar, sob som irritante de vaias. O árbitro dá início à partida.
         Aos primeiros dez minutos de jogo o placar já mostrava 3 x 0 para o time visitante, aquele time tido como “zebra”. A equipe invicta da competição, os jogadores considerados os melhores já amargavam o temor da primeira derrota e o risco da perda do título tão almejado no decorrer do campeonato.
         Os jogadores que prometiam espetáculo terminam o primeiro tempo sob pressão, cobrança e protestos dos seus torcedores. O que teria acontecido com os melhores atletas de Jaime? O que teria acontecido com aquela excelente equipe de jogos anteriores? Por que todos os seus jogadores não pareciam os mesmos? O treinador tenta, mexe no seu time. Reinicia-se o jogo. Segundo tempo.
         Os quarenta e cinco minutos finais passaram-se como um raio. Porém, a equipe visitante teve tempo suficiente para colocar mais seis gols no time favorito. Incrível! 9 x 0, esse foi o placar daquela tarde terrível. Final de campeonato. Jaime, o melhor treinador da região, deixou escapar aquele título tão cobiçado. Algo era desnorteante na mente, nas pernas, nos pés e nas mãos daqueles considerados os melhores da competição. As manchetes dos jornais do dia seguinte, com certeza, iriam ratificar o que foi visto naquela tarde decepcionante,  – time incompetente!
         Chega a noite. Vizinha àquela triste sede de futebol e de revolta localiza-se a escola principal da cidade. Mais uma noite de aula ali aconteceria.
         Na manhã anterior entrando pela tarde de chuva miúda, Valter, o professor de Matemática, havia planejado sua aula e avaliação do término de bimestre. Sua expectativa era a melhor possível. Afinal, ele tinha esperança de que seus alunos, por mais agitados e displicentes que fossem, em suas mentes trouxessem objetivos como o professor Valter também trazia. Ele esperava que aquela noite fosse a sua noite, a noite de seus alunos, a melhor noite, a grande aula.
         Tenta entrar na sala, consegue. Passeia seus olhos ansiosos e cansados pelos quatro cantos da sala. De um mandrião a outro fita um aluno aplicado. Via-se que mais da metade do seu alunado vivia na ociosidade da adolescência desinteressada. Uma advertência aqui, um pedido de silêncio ali, um “por favor”... e o tempo a passar.
         Quinze, vinte minutos passando subitamente diante de si. Faz-se silêncio por alguns minutos, o professor expõe à turma exemplos de vida não tão distantes deles. O passado, o presente, o futuro... de repente um grito no fundo da sala (João jogava um livro de Literatura na cara de Miguel). Miguel que gostava dos cavaleiros medievais, empunhava um pedaço de metal que um dia teria sido uma perna de cadeira (tantas quebradas). Aquele pedaço de metal para o pequeno Miguel era agora um espadim. Tenta-se apaziguar a situação. Cinquenta minutos foram-se. A aula que Valter daria, também se foi. A campainha toca.
         Nas principais pinacotecas suas obras já foram expostas. Raras belezas já surgiram nas telas por ele trabalhadas.
         Contudo, naquela tarde que se mostrava inspiradora, de frente com o cavalete, encontrava-se Pedrinho, sem condições de pincelar suas telas. As substâncias corantes estranhas tornavam-se. No vazio da moldura não havia guache nem nanquim, goma alguma matizaria a tela do pintor. Não havia aquarela. A paisagem, a natureza, as aves e as árvores aos seus olhos eram sem cor, sem vida, quase que invisíveis. Com o pincel entre os dedos, Pedrinho recolhe o cavalete, a tela, recolhe tudo e faz parte da natureza.
         Alguns ligeiros anos depois se encontram todas as tardes na pracinha central do hospício daquela cidade quatro senhores silenciosos. Cada qual menciona apenas uma frase todas as tardes enquanto folheiam o jornal diário:
         -Tentei ser padeiro!
         Não sabia ele de quando era o jornal que folheava.
         -Tentei ser treinador de futebol!
         Não sabia ele se aquele jornal era em cores ou preto e branco.
         -Tentei ser professor!
         Não sabia ele que alguns dos seus clientes também se encontravam naquele lugar.
         -Tentei ser pintor!
         Não sabia ele que sempre foi cego e nunca foi mentalmente são.
         Aquele jornal noticiava que um grande pintor surgia ao público. Mostrava uma tela que mostrava um pintor pintando quatro amigos sentados em poltronas perfiladas observando um filme em outra tela. Um filme sobre um professor cego que exercia a função de auxiliar técnico em um time de várzea, fraco, fraquíssimo, horrível. Porém, havia uma torcida imensa. Torcedores ignorantes, todos famintos, ou quase, eles traziam pedaços de péssimos pães duros. Eles gritam a uma só voz:
         -Tentamos ser agitadores!
         Não sabiam eles que o jogo havia chegado ao fim.



                                                                           

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

C A P R I C H O


Seus olhos redondos, ansiosos, brilhantes mudavam de direção constantemente. Esses olhos procuravam outros olhos, que não encontravam-se ali, entre outros tantos olhos curiosos, frígidos, indecisos, perdidos.

Seus cabelos negros, vivos, sedosos resvalavam sobre seus ombros. Aquela menina não escondia, não conseguia esconder, não tentava esconder a sua aflição pela presença de alguém especial. Não sabia em que local procurar. À esquerda, à direita, à frente, à retaguarda. Nada. Ninguém. Ou melhor, todos. Menos aquele que apenas encontrava-se em sua mente – dona de imaginação fértil. A quimera a possuía. Ela não possuía nem os traços inspiradores daquele ser residente em sua mente. A ânsia a possuía. Ela não mantinha nem as lembranças remotas do olhar súbito daquele ser residente em sua retina.

Seus lábios brilhantes, naturais, vermelhos, artificiais apertavam-se um no outro incoercíveis, indescritíveis, desejosos e enlouquecedores. Aquela boca não aguardava. Sim, aquela boca desejava a outra boca, que não encontrava-se ali, entre tantas bocas falantes, caladas, ansiosas, cheias, vazias.

Suas mãos pequenas, inquietas desejavam tocar outras mãos, que não encontravam-se ali, entre tantas mãos aflitas, quietas, suadas, quentes, frias, indecisas, perdidas.

Suas pernas... desejavam enroscar outras pernas que não encontravam-se ali entre tantas.

Seu ventre fervia. Desejos. Desejos.

De repente seus olhos fixam-se. Seus cabelos não balançam mais. Seus lábios empalidecem. Suas mãos imobilizam-se. Sua mente – imaginação – estaciona.

Ela encontra aquele ser tão desejado. Ele a quer. Ela diz não.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

ABUSO

Numa sociedade perturbada financeira e politicamente, com múltiplos costumes e comportamentos, surgem repentinamente problemas muito graves e de difícil controle. Esses problemas são o desrespeito familiar, o desrespeito social, a falta de ética e principalmente o abuso a crianças, adolescentes e jovens. Pais estuprando, prostituindo inocentes seres humanos que não pediram para surgir sob as tais mãos. Mãos que deveriam proteger, cometem danos irreparáveis.
A base sustentável da nação é educação, informação e consequentemente dignidade vital. A ausência de pontos como esses citados pode levar o ser humano a praticar repudiantes atos. À busca do capital fácil, um indivíduo que se diz pai, por exemplo, pode alugar o corpo da sua cria. À procura de falso sossego, uma pessoa que se diz genitora pode conduzir seu ente à leviandade.
Um necessário robustecimento do intelecto, quando se trata de ser benevolente, torna-se quase impossível. O homem atual é bastante frívolo, materialista e libidinoso. A palavra compassividade não faz parte do seu vocábulo. O amor ao próximo é inativo e ele torna-se de súbito agressivo, sendo capaz de abusar ou conduzir a isso, pessoas que encontram-se inermes, pessoas desprotegidas.
Portanto, a nação mais do que nunca necessita de educação, respeitabilidade, atenção e moralidade. A família tem que se conscientizar da fragilidade possível do próximo e dos erros cometidos. A sexualidade, por exemplo, não está aí para ser rompida bruscamente, agredida e vendida como uma mercadoria. A consciência de cada um deve discernir o certo do errado, o bem do mal. A sociedade que encontra-se perdida no tempo, no espaço e no conceito deve tentar ser racional.

O CONHECIMENTO

Conhecer é de certa forma reconstruir a realidade.
Conhecer é apenas olhar, ver e observar? Focalizar certo gesto, uma ação, é admitir a probabilidade de conhecimento? A construção de fato é o conhecido, o óbvio?
Não basta olhar, ver ou observar para afirmar ser dono do conhecimento. O ser humano depara-se constantemente com inúmeras verdades e nenhuma delas é absoluta. É preciso questionar, opinar, pesquisar, argumentar e, quem sabe, aproximar-se da “realidade”.
Uma cena ao passar de frente dos seus olhos pode ter um significado totalmente antônimo aos olhos de outros. Diante dos seus olhos pode estar o provável conhecimento, mas também a maior incógnita. A construção pode ser ignorada quando até pareça ser íntima, pode ser obscura quando até pareça ser clara, transparente.
De certa forma a reconstrução da realidade aproxima-se com mais ênfase de conhecimento. Essa reconstrução é o questionamento, é o retoque, é a observação na minunciosidade, é a pesquisa de fato. Para reconstruir é preciso conhecer.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

VIAGEM SEM RETORNO

Numa cidadezinha bucólica, distante de tudo, a vida era longa e às vezes angustiante. Numa dessas simplórias casas vivia Maria Augusta, menina meiga, esguia, cabelos castanhos e longos, olhos amendoados e negros. Guga, como era conhecida a menina de quatorze anos, vivia sob os punhos e as severas ordens do pai. Sua mãe havia falecido logo após o seu parto.

Guga era uma aluna tímida da única escola daquela cidade.

O tempo foi passando e o ano letivo findava, assim Guga completava quinze anos. Continuava a silenciosa garota observadora pelos cantos. Seu João, o pai, resolve mandar sua filha à capital. Na cidade grande, matriculada numa escola pública de um bairro agitado do subúrbio, viveria com uma tia.

A turma era muito mais eufórica e falante que a turma conhecida por Guga em sua cidade.

Nas primeiras e súbitas semanas de aula, ela já tinha suas coleguinhas preferidas. Num desses intervalos, Lúcia, uma garota aparentando seus dezesseis anos, loirinha, olhos ligeiramente esverdeados e mostrando ser de família com boas condições financeiras, convida Guga ao banheiro, pois, teria algo para mostrar. O convite fora aceito e elas caminharam ao banheiro.

Lúcia ergue a saia e tira um embrulho que se encontrava entre seu quadril e sua calcinha. Guga permanece a observar, tentando imaginar o que seria aquele pequeno volume. Lúcia salta duas vezes e na terceira consegue derrubar um isqueiro que estava sobre uma das paredes imundas do banheiro. Depois de enrolar num papel fino, acende aquilo que para Guga era apenas um cigarro comum.

– É legal Maria, experimenta! – Assim exclamava a garota da capital.

A singela menina dizia que nunca havia fumado. Mas, depois de tanta tentação resolveu experimentar. Várias vezes engasgou-se, porém, depois de alguns instantes sentiu-se ótima, inspirada, leve, falante até.

Virou rotina a visita ao banheiro feita por Guga e Lúcia...

Seis meses mais tarde estampa a primeira página de um jornal a seguinte manchete: – “JOVEM É ENCONTRADA BRUTALMENTE ASSASSINADA.” – Naquele jornal dizia que Maria Augusta em envolvimento com um perigoso traficante fora encontrada fuzilada numa “boca de fumo”.

EXTREMOS

Rua calçada, às margens casarões luxuosos, carros e carrões importados trafegam diariamente. Dias úteis, dias santos, festividades, carnaval, feriado, todo dia, todos os dias, o mesmo dia. Nada difere um fim de semana de uma segunda-feira. Ninguém se conhece naquela rua. Todos se escondem por trás de vidros e pára-brisas fumês. Bom dia, olá, boa tarde, oi, boa noite, talvez só na própria família, ou para o Doberman, o Pit Bull, o Rotweiller... (guardiões daqueles pseudocastelos).
Vielas esburacadas no final daquela rua calçada, botecos de madeira e lona bem distantes dos casarões luxuosos. Dias úteis (inúteis), dias santos (demoníacos), festividades (gritos), carnaval (pinga e sangue), feriado (prisão e luto), todo dia, todos os dias, uma nova ocorrência, boletim policial, decepção. Mas, o que é decepção para aqueles “moradores”?
Todos se conhecem. Não há pára-brisas fumês, não há vidros separando-os, a não ser quando os dos camburões da polícia ou do instituto médico-legal. Todos conhecem o Joãozinho lombriguento da Dona Júlia, todos conhecem o biriteiro macho da Rita Caçolão. Quem não conhece os vira-latas bamboleantes dos becos escuros? Quem nunca ouviu os latidos de “Tob”, “Baleia”, “Rex” e “Tubarão”?
Enquanto na rua de cima pessoas ilustres assistem ao jornal, o mercado financeiro, a bolsa de valores, os ocupantes da rua, do córrego poluído assistem na casa do vizinho que possui uma 14 polegadas preto e branco a um programa policial de baixa categoria, e outros a caminho do mercado municipal, com sua 12 polegadas enferrujada na cintura, vão tentar conseguir alguma bolsa fácil.
Enquanto Shirley conversa sobre o político-sócio-econômico nacional com seu namorado no banco traseiro do seu conversível às 12h30min da noite, Cicinha tenta desempenar um poste de madeira à beira de uma valeta com seu parceiro atual em beijos e esfregões contínuos.
Enquanto Richard enriquece ilícita e rapidamente na empresa que administra, Manoel é autuado em flagrante ao tentar bater uma carteira na parada de ônibus não tão distante dali.
Manhã cinzenta, movimento intenso de carros luxuosos, a emissora de televisão faz-se presente, um enfarto leva bruscamente o mais antigo residente daquela rua de cima. Discretamente uma lágrima desce em cada face ao cumprimentar a viúva. Os cães guardiões, até eles, demonstram a saudade repentina do seu dono.
Por coincidência, no final daquela rua, uma morte também chama a atenção. Um projétil leva subitamente o mais recente morador. Desesperadamente, gritos e rios de lágrimas verdadeiras ou falsas rodeiam o caixão barato onde se encontra o corpo do indivíduo. Abraços com cheiro de aguardente, suor e hálito forte invadem o corpo de Dona Maria, a viúva.

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terça-feira, 13 de abril de 2010

SOCORRO

Era março de l980, primeira aula de língua estrangeira, 6a série, língua inglesa, escola pública estadual, periferia, capital menos agitada que atualmente, sem Internet, sem bandas de forró proliferando desordenadamente, uma morena de corpo escultural, sorriso largo e branco, nome: Maria do Socorro...

Diz ela: Open the door! e eu abro. – Close the window! e eu fecho. – Speak aloud! e eu grito. E meu coração abre-se. Meu foco fecha-se. Minha visão vem. Minha imaginação grita: Socorro!

Hoje, as primeiras aulas, 5as, 6as, 7as, 8as séries. 1os, 2os e 3os anos. Alguns, estranhos à estranha língua, outros, velhos íntimos da antiga língua. Hoje me lembro daquela segunda-feira de março, eu, novato adolescente diante duma jovem morena de nome Socorro. Eu, novato adolescente diante duma senhora língua alheia tão íntima. Hoje eu também grito, porém estou do lado oposto...

Help!

quarta-feira, 24 de março de 2010

A PERTINÁCIA CONTRA A AMBIÇÃO

Surge do imaginário inocente, nasce da ainda não trabalhada mente um ser fantástico. Será real esse ser estupendo? O certo é que passeia na imaginação infantil e fértil de um outro ser. Seicilan é um garoto ativo, realizador e vive na utopia de uma criança. A bela criança que atende por Bela viaja intimamente em um quase interminável silêncio, mas, quando dirigidas a si algumas palavras, ela menciona o nome de seu amiguinho e conta aventuras maravilhosas vividas com o tenaz Seicilan.

Quando o sol esmorece e esconde-se entre algumas montanhas no horizonte já é final de tarde. Faz-se presente um lindo cavalo branco, crina eriçada, com arreios resplandecentes, e sobre esse cavalo um menino numa armadura dourada. Cavalgando por entre os campos de girassóis com destino ao grande castelo. Lá está o seu objetivo, naquele final de tarde fria. Uma dama, pequenina dama encontra-se em apuros, Seicilan ouvira estridente seu grito de socorro. Bruxas cegas, porém, malvadas mantêm em cativeiro uma inocente criatura. Apenas por perversidade privam aquela pequenina de sentir a brisa, os raios solares, o poético luar, tudo o que significa liberdade.

O castelo é rodeado por guarnições fortes e adultas, armadas e estratégicas, cruéis e intransponíveis. E agora? O que fará o herói de Bela? Seicilan, diante de toda dificuldade, volta ao seu velho rancho e consulta o seu mestre, o ancião feiticeiro.

-Mestre, é impossível para um único guerreiro invadir aquele castelo. -Profere Seicilan, decepcionado.

-Para um obstinado nada é impossível. -Retruca o feiticeiro.

O mestre toma em suas trêmulas mãos um recipiente contendo um líqüido poderoso e explica ao garoto o que deve ser feito. Ele sobe em seu cavalo e retorna ao castelo. Chegando em frente à guarda principal, diante do enorme portão ele grita:

-Atenção respeitáveis guardiões! Atenção! A rainha promoveu uma grande competição. O vencedor será herdeiro da coroa. -A rainha era uma velha senhora, solitária, à beira da morte e possuidora da maior parte de terras daquele lugar e Seicilan um garoto no qual todos depositavam total confiança.

-Qual será a prova? -Perguntou ansioso o comandante da guarda.

-Natação. Aquele que chegar primeiro à outra extremidade do rio será o vencedor e futuro rei. -Todos preparam-se e partem a nadar. O garoto havia colocado o potente líqüido sonífero nas águas do rio, assim que atravessam todos caem em ronco profundo.

Com sua espada em punho Seicilan invade o castelo, depara-se com as três bruxas cegas ao redor de um caldeirão enorme. À esquerda está Bela, sentada sobre os calcanhares a chorar.

-Calma, minha princesa! Estarás salva num instante. -O herói gira as três bruxas. Cegas, atordoadas e já perdidas, tropeçam e caem no caldeirão de água gelada. Tremem e roem os restos de dentes rangendo de ódio da derrota.

Seicilan pega na mão de Bela e dirige seus passos fracos e lentos até o portão. Sobem em seu cavalo branco e cavalgam juntos entre os campos de girassóis. Olham para trás e vêem guerreiros de mentira, por causa do poder, da ganância, em sono excessivo.

domingo, 14 de março de 2010

HOJE ELE DARÁ AUTÓGRAFOS

Conheci o Marlon, tarde, mas, não muito tarde para descobrir nele o amigo que tenho, com suas falhas, claro, todos nós temos as nossas, mas um amigo.

Conheci o Marlon, atrasado, mas, não tão atrasado para que não percebesse a pontualidade de sua amizade, com suas falhas, claro, todos nós temos as nossas, mas um amigo.

Vi os poemas do Marlon no tempo certo, li os poemas do Marlon na hora certa, às vezes fora de hora, mas, para a poesia não existe hora certa, determinada, é “pá-bufo”, em casa, nas ruas, nos bares, no ônibus, nos muros, nos rascunhos, nos murais, no ar... e agora no livro FrenteΛerso.

Lembro o tempo quando era divertida a viagem à Arapiraca, à Funesa. Lembro daqueles momentos quando fazíamos rimas “bestas” a partir de uma palavra qualquer. Aquilo era tão infantil e tão adulto ao mesmo tempo. Aquilo era tão banal e tão sério ao mesmo tempo. Aquilo era tão chato e tão gostoso ao mesmo tempo. Porque aquilo era o nosso tempo. Fazíamos e faremos desse tempo o que quisermos.

Hoje brincamos com as letras, brincamos com as palavras, fazemos versos a partir de qualquer momento, de qualquer ação ou reação. Como comentamos vez em quando, vomitamos poesia. Esse vômito é sadio, é versificado. Esse vômito não é gástrico, mesmo tendo nós a mais crônica úlcera. Esse vômito não é ressaca, mesmo depois de uma noite de bebedeira. Esse vômito não é fétido, e às vezes sim. Vomitemos poesia depois de bebermos Marlon! Vomitemos poesia depois de degustarmos FrenteΛerso!

CICATRIZ PREVISTA

Isso é parte da história de um indivíduo que detestava aparelhos telefônicos celulares. Suas campainhas irritantes, as conversas alheias em voz alta e atropelada. Mas, justo que um dia, por infame necessidade, precisou adquirir o famigerado aparelho. Na época, novidades, mensagens aos amigos, aviso aos companheiros de trabalho, solicitação de “reunião etílica” com alguns poetas da cidade, etc., tudo isso era facilitado através de um alô ou um “teclar”.

Dias vêm, dias vão, e ele vai sem um arranhão. Nenhum arranhão na mente, na alma ou no coração. Sem querer aqui plagiar Cazuza, mas, o tempo não pára. Eis que esse ser comunicativo conhece o “BLAH”, cadastra-se. Comunica-se com várias pessoas de diversas partes do país. Algumas pessoas intuitivamente sinceras, outras nitidamente falsas, fantasiosas. E o tempo teima em prosseguir. Ele, às vezes, querendo ser cavalheiro, às vezes bruto, às vezes sensível, outras vezes intocável, personagem enfim.

Cavalier8 um dia entra em contato com Odalisca43. Mensagens vêm, mensagens vão, e ele vai sem um arranhão. Nenhum arranhão na consciência, nos atos ou na imaginação. Intimidades compartilhadas, amizade feita.

A dona do “nick” (redução de nickname), digo, apelido, tem nome de princesa. Voz sensual, desde então, já não eram apenas mensagens de textos, mensagens gráficas, veio a voz. Aquela voz mexeu demais com Cavalier8, e Dayana (é sim, Dayana com “a” e “y”, não como a princesa) dizia que havia gostado muito da voz dele. O sujeito de voz forte e determinada, passava “longos e longos minutos” com o aparelho celular ao ouvido. Narrações íntimas, dança do ventre imaginária como dizia Odalisca43 e como fantasiava Cavalier8.

Depois de nove meses (não foi uma gravidez), foi mais que isso, eles resolvem marcar um encontro, marcam. Encontram-se numa praça, no centro da cidade. Ele chega no território da moça pisando firme e disposto a só retornar dia seguinte. Providencia um hotel. Hospeda-se. Quarto 137.

Mais tarde, toca o aparelho telefônico móvel:

-Tô aqui em frente. -Escuta ele aquela voz excitante. Era ela que havia retornado de casa depois de ter ido trocar as vestes. Ela estava muito mais linda e provocante que antes. Ele desce. Cumprimentam-se e depois os dois sobem. Entram nos aposentos e iniciam de súbito a sessão de beijos e toques gostosos, enfim... Aparelhos telefônicos desligados. Isso era o aconselhável.

Hora da despedida. O indivíduo já imaginava a próxima vez. O que antes ardia, agora queima, e queima sem dó.

Tentativas, tentativas e tentativas...

“Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagens e estará sujeita à cobrança após o sinal”.

Corta-se profundamente sem sangrar.

ERRADO! ATOS ERRADOS




        Quando tentei transpor as barreiras derrubei-as e também caí. As barreiras eram os olhos e a visão daquela gente preocupada.
        ─ Ah! Isso não pode.
        ─ Ei! Isso está errado. É fora da lei. É antiético.
        Quando tentei me levantar as exigências da sociedade me derrubaram novamente.
        ─ Estás errado. Isso é imperdoável.
        ─ Serás condenado.
        O falso moralismo, a hipocrisia e a vigilância medonha, tacanha, insistente me perseguiram sempre, sempre querendo me dar a rasteira. Inúmeras vezes me esquivei. Inúmeras vezes escapei da queda. Armadilhas puseram para capturar a minha efêmera felicidade. Em armadilhas eu caí por minha ingenuidade juvenil. Várias vezes. Repetitivos atos infantis.
        ─ Cara, tu és teimoso!
        ─ Não estás vendo que isso é errado?
        O instinto e o coração ladeados. A emoção e os atos tolos lado a lado. A razão ignorada – ela faz doer. Assim eu encontrava mais barreiras a serem transpostas, a serem derrubadas, e eu sempre caindo junto. Mais olhares, outras observações e observações. Outras pessoas alheias ao caso se preocupando com os meus atos. Preocupação danosa. Não era o meu bem que eles desejam ver. A preocupação insistente era para explicitar que eu me encontrava errado, que eu era um fora-da-lei, que aquilo estava errado e era antiético. Eles queriam provar que aquilo era imperdoável, que eu estava errado, que eu seria condenado. E novamente olhares e vozes batiam em mim insistentes dizendo que eu estava errado, errado, e errado de novo.
        ─ Bicho, tu vais te dar mal.
        ─ Não és mais nenhuma criança!
        O meu instinto seguiu o meu coração. Os meus atos se fizeram dos meus instintos. Esses atos da emoção. E a razão desquitada de mim. Daí, eu vi. Eu vi e furei os meus olhos para não mais enxergar. Não enxergava eu. Eu não enxergava. Porém, eu via, eu via, o erro, o errado, os plurais, o singular, os erros, os errados. Eu, só eu! Eu cego, sem olhos inteiros – furados. Eu sinto, sem olhos, minha emoção. Sem olhos, eu sinto aqueles com olhos inteiros. Eles, totalmente certos, possíveis, éticos, poderosos, morais, perdoáveis, imunes... “Senhores da Razão”.
        E eu na minha emoção...
        ...errado.


                                   


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PONTO G

Você é demais. Quando 12 de Agosto chegou comecei a escrever sobre um T enorme, é um T tão grande que ainda hoje escrevo sobre esse T. O teu suspiro, a tua respiração ofegante deixam-me ofegante. Um outro T, não tão grande, vez em quando nos atrapalha, vem não sei de onde uma voz dizendo: “seu saldo é insuficiente para efetuar chamadas, por favor recarregue seu celular...” T... Só que o meu T grande está sempre recarregado pra ti. Só pra ti. Tin tin, Tim Tim, som... saudade imediata.
Você é demais. Quando acordo nas madrugadas barulhentas com os meus pensamentos silenciosos, GRITO! Quando adormeço nas tardes silenciosas com o meu barulhento sentimento, calo! O teu chamar, a minha insistência antiga deixam o teu ofegar me afogar até a manhã. A manhã que poderá ser amanhã.
Você é demais! Até amanhã. Você é demais até de manhã. Você é demais em qualquer manhã... E o T cresce, cresce, cresce... É ENORME.

quarta-feira, 3 de março de 2010

SEM DESPEDIDA

Pele enrugada cobre mãos trêmulas, pernas fracas, face triste. À minha esquerda um corpo ou apenas um vulto em forma de “esse”. Aqui neste banco gelado de uma praça deserta, numa noite fria, encontro-me em companhia de um desconhecido. Tento encontrar-me com o desconhecido. A incógnita. O mistério. O vulto à minha esquerda teima em permanecer calado. Seus frágeis (aparentemente) membros de vez em quando proporcionam um mínimo movimento. Seus olhos (com mais freqüência) desviam-se de um lado a outro, parece até que está à espera de alguém.

Tento fitar o desconhecido. O ignorado. O impenetrável. A figura à minha esquerda é real. Quase que imóvel, mas real. Murmúrios incompreensíveis saem não sei de onde. Esses murmúrios vêm desse corpo que permanece ao meu lado. Pergunto-me o que ele espera. Pergunto-me o que ele observa e o que deseja com seus olhos tão inquietos. Não me dirijo a ele. Também teimo em me calar. Observo.

À minha direita, no chão, um maço vazio amassado de cigarro cujo ex-dono em breve estará distante, talvez tanto quanto amassado. Esse ex-dono, eu. À minha esquerda uma carcaça torta sentada no banco gelado. Carcaça com algum recheio ainda. Crânio quase fixo apesar da convulsão anciã. Crânio possuidor de um cérebro com o dobro da minha idade. E eu aqui, à direita, tentando desvendar o que situa aquela mente. Seria um câncer? Seria uma nobre idéia? Seria a triste nostalgia? – Assim vou me perguntando. Mas permaneço calado. O vulto, o corpo, a carcaça ao meu lado não profere nenhuma resposta. Não ouve, não falo. Não responde, não pergunto. Apenas o silêncio mútuo. Silêncio da noite, do vulto, nosso silêncio.

Seus braços magros (trêmulos) movem-se lentamente retirando algo de uma valise que repousava à sua esquerda. Em suas mãos um álbum de fotografias antigas – suponho. Passando página por página com dificuldade enquanto uma nítida lágrima rola em sua face cansada. Aquela convulsão subitamente torna-se mais forte, e mais, e mais, e mais, mas seus olhos continuam direcionados ao álbum, o álbum preso às trêmulas mãos. Tenta levantar-se. Não o ajudo, observo. Consegue. A convulsão parece aumentar cada vez mais. Fico assustado ao ver aquela carcaça trêmula que não mais tem forma de “esse”, agora é um “cê” trepidante segurando um álbum de fotografias. Contudo, permaneço estático e mudo. Vejo algumas pessoas evitando a queda do corpo. Cuidadosamente é posto em um veículo que se desloca apressado.

Tendo partido o meu silencioso companheiro restam o maço amassado, o álbum aberto no solo, na praça, o banco gelado, o mistério. E eu?

sábado, 20 de fevereiro de 2010

REMINISCÊNCIA (Uma Imagem no Fim da Tarde)


     Passeando naquele início de noite, entre as galerias, Amor exibia seus dotes másculos e as máculas deixadas pelo tempo. Em ligeiros olhares disfarçados procurava um olhar recentemente provocador. Um olhar indagador sob a candura notável de uma face até aquele momento desconhecida. Ele disfarçava também o acelerar repentino daquele órgão que bombeava seu fluido rubro. Disfarçava também o eriçar da sua penugem que parecia querer expelir-se dos poros. Ainda descrevendo o seu tremor ou o seu temor, a que, por que, não se sabe – ainda – ele também tentava disfarçar – sem sucesso – o calafrio que o invadia. Passeando, não. Agora não mais passeando, parecia que rompia barreiras, que cavava trincheiras. Amor parecia caçar sua presa, mas, dissimulado.
     Pára em frente a uma obra esplêndida suspensa na cama creme – tantos quadros ali expostos. Salão imenso, imenso na tradução mais enfática de imensidão. Eram imensas camas, quatro altíssimas camas que formavam aquele salão onde se expunham suntuosas obras. Seus olhos ainda perdidos no público procuravam outros olhos não tão perdidos, e ao público seu olhar é lançado.
Depara-se com um ser de inigualável beleza. Talvez ele saiba o que é e o que não é belo. Focaliza um ser possuidor de bondade explícita. Talvez ele saiba o que é e o que não é mau. Esbarra com um ser possuidor de atos lícitos, aparentemente. Talvez ele saiba o que é e o que não é corrupto. Olham-se de súbito.
     Um rápido cumprimento, olhos nos olhos novamente, mão na mão. Uma alavancagem e ela estava nos seus másculos braços. Um outro puxão e corpo no corpo, ou, corpo a corpo. Para Amor, uma nova paixão. Bruscamente, porém não inesperadamente, ela gruda-se em seus punhos sem dizer o nome, e sem ouvir perguntas sobre identidade puxa o seu corpo contra o dela, joga o seu corpo contra uma das camas, uma das quatro camas de cor creme, e gemem. O público para eles era invisível. Eles para o público eram invisíveis. Só os quadros ali, suspensos nas camas altas de cor creme, tremem. E eles imitando os quadros, as camas cremes, também tremem. E de repente Amor se vê cercado, ele está alvo, ele é o fito de fato. Sem mais querer dizer o nome, ela enfia a lâmina do seu olhar nos olhos de Amor. E os seus punhais afiados, ela introduz no peito de Amor que é cravado agora em uma das camas cremes, e ele geme. Não se sabe se de prazer ou de dor, mas, ele geme.
     A visibilidade retorna. À visibilidade Amor retorna, agora ele é mais uma obra surrealista exposta em uma cama creme de um salão imenso, numa galeria distante.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

CONSUMO


Em minha residência dificilmente (dificilmente corresponde aqui a “quase” impossível) entra maionese, molho de tomate, extratos, qualquer enlatado, muito menos produtos fora da validade impressa nos recipientes – vidro, plástico ou papel. Certo dia, ao chegar do supermercado, minha esposa perguntava: olhou a validade? Tá dentro do prazo de validade? Viu a data? Eu peguei uma caixinha de maionese e girei pra lá, pra cá e disse: doze de novembro – era um fim de tarde de terça-feira, onze de novembro.
– O quê? – Interroga brava e preocupada. A maionese já havia entrado em nossa casa sob resistência. Porém, eu havia mentido a respeito da data de validade. Comi da salada.
Uma senhora dizia que não consumiria produtos estrangeiros de forma alguma, principalmente produtos americanos. Estampas em suas blusas, camisas, bonés, só estampas nacionais. Ela se preocupava em observar se algo era ou não nacional antes de consumir. Ela já deixou de participar de vários eventos por presenciar destaques ou alguma apologia a algo estrangeiro. Não vestia as cores vermelha, branca e azul juntas – tinha pavor dos Estados Unidos. Não usava a cor vermelha – lembrava a Rússia. Branca e vermelha, nem pensar – lembravam o Japão. Geralmente suas vestes eram ou todas em branco (não se lembrava da mente de alguns patriotas) ou todas em preto (não se lembrava das trevas em que se encontrava seu país).
Essa senhora visitava uma amiga durante a festa natalina. Alegria, confraternização, discussão sobre o passado ano, novidades, surpresas. Hora de dormir, escovou seus dentes e foi à cama. Agradeceu a Deus por ter amigas tão leais, a ter vivido mais um dia. Dormiu.
A amiga, preocupada, no dia seguinte acordou logo cedo. Encontram-se à mesa para o café da manhã.
– Mulher, esqueci de colocar seu creme dental no banheiro.
– Ah, querida! Encontrei creme dental... não diga... não diga que aquele creme não é nacional.
– Não viu?! É fabricado em New Jersey. – Disse a amiga desolada. A outra, irritada, dirige-se ao mais próximo dentista e torna-se banguela totalmente.
Em “reuniões etílicas” (expressão usada por um amigo lá do norte para designar nossos encontros de bebedeira) lemos textos diversos, sem a preocupação com datas de validade. Setembro, janeiro, quinze, dezoito. Sem a preocupação inquietante em saber quem são seus construtores. Alcântara, Alcar, Drummond, Rimedualc, Moraes, Matias, Ramos, Navi, Pereira...
Lemos, vivemos, degustamos poesia.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A PRIMEIRA SENSAÇÃO

Quase que estático, em frente à Faculdade, estou a observar o nada e ao mesmo tempo o tudo, o enigmático olhar do efeminado que entra às pressas pelo portão. Parado estou eu tentando ler algo sobre o impressionismo na obra “O Ateneu”, de Raul Pompéia, apreensivo com uma apresentação posterior. Enquanto isso, não evito observar o entra-e-sai pelo portão, o enigmático olhar da lésbica que entra às pressas na sala de aula. Parado estou eu tentando ler sobre o toque impressionista, os elementos realistas-naturalistas na obra já citada, enquanto os “universitários” conversam sobre bandas de forró que farão shows no fim de semana, hoje é quinta.
E minha, nossa professora, com seu chapeuzinho vermelho, blusão jeans, calça enxadrezada, sapato da cor do chapéu, passa também por esse portão, amanhã ela ouvirá um aluno tenso falar sobre impressionismo, esse aluno, eu, ou não.
Nos corredores (que há tempos caminho) passam alunos em direção à copiadora, ao w.c. (water closet), ao jardim para um cigarro. E os diálogos? Enquanto isso, só eu, meu monólogo, papel, rascunho. Os diálogos? Aqui já ouvi discussões sobre Osama, Bush, Ronaldo “Fenômeno”, Big Brothers Brazil 1, 2, 3 e 4, Mensalão, Asa de Arapiraca, asa de galinha com cachaça no bar da esquina. Nesses corredores já me inspirei tantas vezes, às vezes triste, às vezes contente. Nesses corredores já falei sobre a “perua” – “Carlão”*, ampliei o meu acervo, ouvi toc-tocs dos calçados das “patricinhas”, tic-tacs dos relógios dourados no silêncio das avaliações. Já ouvi explicações sobre literatura estrangeira em outra língua, já ouvi o silêncio dos alunos, Gostaria muito deixar esses corredores.
Mas, hoje me aprisiona aqui “O Ateneu” amanhã, “O Alienista” depois, na “Casa Verde”, sem pompa, com golpes de “machados”, com vozes intraduzíveis.
Quase que enfático, parado aqui, é o golpe. Uma “louca” c.d.f. quase que desmorona minha faculdade mental. Ela corre, corre, braços abertos, estendidos, gestos de vôo – peça teatral, literatura outra vez. E de repente em mim uma louca vontade de também voar, mas, não gesticulo, parado permaneço, quase que estático. Vôo, apenas em pensamento.
Quero deixar esses corredores. Vou pelas janelas, pelo portão. Não importa. Traduzirei o meu vôo.



*personagem da crônica A Caça (Lubricidade)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

NA CONTRAMÃO

                   

                   Era uma tarde chuvosa em um bairro do subúrbio da capital. Ela observava de longe duas pessoas que estavam frente a frente, conversavam, gesticulavam, escreviam algo. A chuva insistia e ela aproximava-se dos dois. Então reconhecia aquelas duas pessoas que escreviam compulsivamente – eram sua amiga e seu marido. Ela gritou, e acho que todos ali, ao redor, também gritavam, se não gritavam, logo após a fúria da suposta traída, “horrível!”, disseram eles.
                Porém, muito “mais horrível” foi quando todos perceberam que o texto elaborado era sobre a fidelidade no matrimônio – “mais horrível” foi que esse texto estava escrito em papel higiênico que se desenrolava por toda aquela avenida.
                     A chuva cessava e um sol causticante jogava-se sobre a pele dos curiosos, sobre a pele dos bisbilhoteiros, sobre a sua pele, a de seu marido, sobre a pele daquela que não seria mais sua amiga. Jogava-se também o sol sobre o texto que já era ilegível naquele dissolvido papel higiênico.

                     Todos se recolheram, seguiram destino, protegeram-se do sol, esqueceram o texto, esqueceram o casal. Entretanto, ela não esquecera que fora traída. Argumentos diversos, explicações verdadeiras não retiraram da mente daquela jovem senhora o ódio da traição. As provas de que sua amiga e seu marido eram fiéis a chuva havia levado.

CORES NOVAMENTE

Depois de um curto pesadelo, numa curta noite de sono, acordo-me deitado nesse escuro quarto sobre o meu fino colchonete, não mais fino que meus lençóis. Colchonete amarelo desbotado ou bege? Não vejo absolutamente nada, só o preto. Tateando, encontro o meu prateado relógio de pulso que repousava sobre a cor creme da cerâmica empoada do piso. Pressiono o pivô designado light acendendo em vermelho os numerais do mostrador. Ainda é cedo.
Vejo agora o preto e o vermelho. Fecho os olhos e vejo preto, cinza, vermelho. Com os olhos fechados vejo objetos no teto pendurados. Não têm formas fixas, são retângulos, quadrados, triângulos, círculos... pequenos, grandes (não tão grandes), cabem nesse escuro quarto. Fecho os olhos pretos e vejo o preto, quando os abro, o preto, o cinza, o vermelho – vermelhos. Os olhos fecho e abro continuamente.
Não mais durmo, nem cochilo, sequer um curto cochilo, mas o toscanejar continua tentando enlouquecer-me. O despertador do aparelho telefônico alerta. Tateando levanto-me. Olhos fechados ou abertos, não importa. Tateando encontro o interruptor e faço pressão, luz finalmente. Confirmo a espessura do meu colchonete. Colchonete desbotado sobre a poeira do piso. Vejo as horas sem premer aquela haste metálica cilíndrica, o pivô light. Essa é a hora de voltar pra casa.