Majal-San (post.)

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" Viva a Poesia! "

terça-feira, 20 de abril de 2010

OUTRO LOUCO

Lapidei os obstáculos do meu caminho,

Ocupei todas as frias esquinas

Uivando como um animal no cio.

Retruquei aquela visão mais lapidada,

Daí em diante eu já era um novo louco.

Esperava-te em todas as brisas e ventos,

Sem dar importância a todo meu sufoco.

DESORDEM

Sub-raça na garupa de um projétil,
Delinquentes no cabo de um facão,
Desumanos na extremidade de um porrete,
Um corpo, outro corpo, corpos ao chão.

Instinto no gume de uma navalha,
Ódio e medo na boca de um mosquetão,
Órgãos e sangue na lâmina de um punhal,
Um corpo, outro corpo, corpos ao chão.

Sub-raça, violência, impunidade, fim.
Delinquentes, crimes, impunidade, fim.
Desumanos, desrespeito, impunidade, fim.
Era um corpo, outro corpo, era, fim.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

SEM PALAVRAS

Eles olham minhas olheiras

Observam o vermelho dos meus olhos

Imaginam o meu passado

Condenam o meu instante

Sentenciam o meu futuro


Eles olham meus passos

Observam o equilíbrio dos meus pés

Imaginam o meu desvio

Condenam o meu tombo

Sentenciam-me ao buraco


Eles olham lá de cima

Observam o meu desprezo

Imaginam o meu sentimento

Condenam o meu conceito

Sentenciam o meu silêncio


Jogam-me à terra

Jogam-me a terra

Jogam e aterram.

VAZIO

Cabeças vazias

Balançam em sim

Balançam em não

Mentes vazias

Assimilam o “tim tim”

Não tintin por tintin

Não entendem o não


Corpos cheios

Desviam dos tombos

Não reconhecem o chão

Copos cheios

Quebram-se nos escombros

Fazem o “tim tim”

Sem molhar o chão.

PAIXÃO


Passou por mim feito um raio
mas deixou suas marcas


Arranhões
Riscos
Nódoas


Passou feito um raio por mim
mas suas marcas ficaram


Cicatrizes
Traços
Manchas


Feito um raio passou por mim
mas deixou suas marcas


Lembranças
Perfume
Inspiração


Está passando, lá vai, passou,
já foi, tchau, adeus...


NEBULOSIDADE

Por quantas vezes saí por essas avenidas
chutando latas, puto da vida?
Vento na cara, poeira aos olhos,
No peito um tormento,
A dúvida, onde estás neste momento?


Sem respostas, na caminhada,
Seguindo tonto, sob críticas,
E nenhum argumento.

A chuva no meu blazer esfarrapado,
Em minha lembrança o teu véu molhado,
E minhas lágrimas misturadas ao orvalho.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

À SOMBRA DA MORTE


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Sentado à sombra dessa árvore
Sentindo à face o vento frio
E as folhas secas ao corpo úmido
O som do vento e o meu assovio.
À minha mente uma canção é triste
O corpo trêmulo – lembrança vaga
Papéis amassados – rascunho vil
E essa sombra que não se apaga.
Uma folha verde pego e leio
O teu nome encontra-se ali
Uma página branca pego e rasgo
Um poema surgiria pra ti.
As folhas secas caem e logo partem
As folhas verdes extraio e amasso
A página branca amasso em branco
E o corpo trêmulo nesse espaço.
Espaço minúsculo para uma enorme solidão
Presença apenas do vento na face
Espaço longo para sonhar com um “não”
Presença apenas do poema que nasce.

VIAGEM SEM RETORNO

Numa cidadezinha bucólica, distante de tudo, a vida era longa e às vezes angustiante. Numa dessas simplórias casas vivia Maria Augusta, menina meiga, esguia, cabelos castanhos e longos, olhos amendoados e negros. Guga, como era conhecida a menina de quatorze anos, vivia sob os punhos e as severas ordens do pai. Sua mãe havia falecido logo após o seu parto.

Guga era uma aluna tímida da única escola daquela cidade.

O tempo foi passando e o ano letivo findava, assim Guga completava quinze anos. Continuava a silenciosa garota observadora pelos cantos. Seu João, o pai, resolve mandar sua filha à capital. Na cidade grande, matriculada numa escola pública de um bairro agitado do subúrbio, viveria com uma tia.

A turma era muito mais eufórica e falante que a turma conhecida por Guga em sua cidade.

Nas primeiras e súbitas semanas de aula, ela já tinha suas coleguinhas preferidas. Num desses intervalos, Lúcia, uma garota aparentando seus dezesseis anos, loirinha, olhos ligeiramente esverdeados e mostrando ser de família com boas condições financeiras, convida Guga ao banheiro, pois, teria algo para mostrar. O convite fora aceito e elas caminharam ao banheiro.

Lúcia ergue a saia e tira um embrulho que se encontrava entre seu quadril e sua calcinha. Guga permanece a observar, tentando imaginar o que seria aquele pequeno volume. Lúcia salta duas vezes e na terceira consegue derrubar um isqueiro que estava sobre uma das paredes imundas do banheiro. Depois de enrolar num papel fino, acende aquilo que para Guga era apenas um cigarro comum.

– É legal Maria, experimenta! – Assim exclamava a garota da capital.

A singela menina dizia que nunca havia fumado. Mas, depois de tanta tentação resolveu experimentar. Várias vezes engasgou-se, porém, depois de alguns instantes sentiu-se ótima, inspirada, leve, falante até.

Virou rotina a visita ao banheiro feita por Guga e Lúcia...

Seis meses mais tarde estampa a primeira página de um jornal a seguinte manchete: – “JOVEM É ENCONTRADA BRUTALMENTE ASSASSINADA.” – Naquele jornal dizia que Maria Augusta em envolvimento com um perigoso traficante fora encontrada fuzilada numa “boca de fumo”.

MALÉVOLOS

Dois arpões em minha direção,

Afiadíssimos. Querem me furar!

Duas espadas à minha espera,

Inquebráveis. Querem me cortar!


Dez punhais à minha espreita,

Cruéis e perfurantes. Querem me sangrar!

Dez projéteis no meu caminho,

Certeiros e com destino. Querem me matar!


Uma mente em transformação,

Ingênua, insiste em me torturar

Sobre armas inúteis, estáticas.


Outras mentes em escarnicação,

Tiranas, desejam me aniquilar

Com armas enérgicas, enfáticas.

ÉSSES

Sandálias

Sandals

Sundown

Sundae

Sunday

Sand

Sandy

Sandice

Sansão

San

Sã

São

São todos

Somos nós

Não é ninguém.

EXTREMOS

Rua calçada, às margens casarões luxuosos, carros e carrões importados trafegam diariamente. Dias úteis, dias santos, festividades, carnaval, feriado, todo dia, todos os dias, o mesmo dia. Nada difere um fim de semana de uma segunda-feira. Ninguém se conhece naquela rua. Todos se escondem por trás de vidros e pára-brisas fumês. Bom dia, olá, boa tarde, oi, boa noite, talvez só na própria família, ou para o Doberman, o Pit Bull, o Rotweiller... (guardiões daqueles pseudocastelos).
Vielas esburacadas no final daquela rua calçada, botecos de madeira e lona bem distantes dos casarões luxuosos. Dias úteis (inúteis), dias santos (demoníacos), festividades (gritos), carnaval (pinga e sangue), feriado (prisão e luto), todo dia, todos os dias, uma nova ocorrência, boletim policial, decepção. Mas, o que é decepção para aqueles “moradores”?
Todos se conhecem. Não há pára-brisas fumês, não há vidros separando-os, a não ser quando os dos camburões da polícia ou do instituto médico-legal. Todos conhecem o Joãozinho lombriguento da Dona Júlia, todos conhecem o biriteiro macho da Rita Caçolão. Quem não conhece os vira-latas bamboleantes dos becos escuros? Quem nunca ouviu os latidos de “Tob”, “Baleia”, “Rex” e “Tubarão”?
Enquanto na rua de cima pessoas ilustres assistem ao jornal, o mercado financeiro, a bolsa de valores, os ocupantes da rua, do córrego poluído assistem na casa do vizinho que possui uma 14 polegadas preto e branco a um programa policial de baixa categoria, e outros a caminho do mercado municipal, com sua 12 polegadas enferrujada na cintura, vão tentar conseguir alguma bolsa fácil.
Enquanto Shirley conversa sobre o político-sócio-econômico nacional com seu namorado no banco traseiro do seu conversível às 12h30min da noite, Cicinha tenta desempenar um poste de madeira à beira de uma valeta com seu parceiro atual em beijos e esfregões contínuos.
Enquanto Richard enriquece ilícita e rapidamente na empresa que administra, Manoel é autuado em flagrante ao tentar bater uma carteira na parada de ônibus não tão distante dali.
Manhã cinzenta, movimento intenso de carros luxuosos, a emissora de televisão faz-se presente, um enfarto leva bruscamente o mais antigo residente daquela rua de cima. Discretamente uma lágrima desce em cada face ao cumprimentar a viúva. Os cães guardiões, até eles, demonstram a saudade repentina do seu dono.
Por coincidência, no final daquela rua, uma morte também chama a atenção. Um projétil leva subitamente o mais recente morador. Desesperadamente, gritos e rios de lágrimas verdadeiras ou falsas rodeiam o caixão barato onde se encontra o corpo do indivíduo. Abraços com cheiro de aguardente, suor e hálito forte invadem o corpo de Dona Maria, a viúva.

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quarta-feira, 14 de abril de 2010

PSEUDOFRUTO

Pseudofruto

Mãos atadas

Aos olhos vendados

Na escuridão



Passos lentos

Nesse caminho estreito

Da obsessão



Frases soltas

Nesse texto torto

Da submissão



Coxas bambas

Após o sexo amargo

Rolando no chão



Cheiro salobre

Dessa transa “trépida”

Longe do colchão.


UM PESADELO

Selinhos artificiais
Em correspondências frias
Um tchau na catedral


A poesia recolhida
Os aborígines dispersos
Da catedral à tua procura
Sem radar


O fim de um sentimento
Da catedral um amor acabado
Para o conforto pedido
O teu chamado perdido


Selinhos molhados
Em lábios paralisados
Um salto da alta torre


A poesia espalhada
Em mentes diversas
Da torre à tua procura
Sem radar


O início de outro sentimento
Na torre o amor acabou
Para o infinito desespero
O teu desprezo é nítido.

RESULTANTE

Palavras:

-indagações

-acusações


Audição

Surdez

gritos

ecos – eco


Dor:

“opressões”

“sufocações”

“frustrações”.


RIKEMALCARTOCAL (Sete Poetas)

Rikemalcartocal (sete poetas)

Versos perdidos
Poetas achados
Nicotina e álcool reunidos
Vozes, vozes, vozes


Inspiração repentina
Loucos lúcidos
Paradoxos à menina
Sons, sons, sons


Papéis, cinzas engolidas
Papéis não mais em branco
Fumaça inalada, consumida
Vozes, sons, vozes, silêncio...