Majal-San (post.)

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" Viva a Poesia! "

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Indébito


Por que em meus bruscos sonhos
Somos tão íntimos?
Por que em minha longa realidade
Somos tão dispersos?

Eu grito, tu calas.
Eu calo quando gritas.
Eu sonho quando calas.
Eu morro quando realizas.

Por que em meus súbitos sonhos
Somos tão amantes?
Por que em minha durável realidade
Somos tão divergentes?

Eu calo, tu gritas.
Eu grito quando calas.
Eu calo quando sonhas.
Tu realizas quando morro.

Para que tantos sonhos
Se nossas realidades são dispersas?
Para que tantos sonhos
Se o meu grito é sem ruído?

Para que sermos amantes
Se os meus sonhos são tão súbitos?
Para que sermos amantes
Se o teu silêncio é tão agudo?

Eu sumo, − não assumes.
Não consumo o teu sumo.
Eu calo, − és estranho.
Não entendes porque calo.


                   

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Insensato




Sem você
Nada tem sentido!
Peixes idiotas,
Que nadam pra trás,
Num aquário de cachaça,
Observam meu riso de tristeza.
Plantas azuladas,
Que nascem nas paredes do meu quarto,
Florescem ao sentir meu pranto.
Um rádio velho,
Com seu tac-tic constante,
Chega a me irritar por toda noite.
O relógio de pulso
Dá uma dica de como
Ser menos triste no amor.
As muriçocas – coitadas!
Fogem com pavor
Dos meus dentes afiados.
Cães assustados miam no telhado.
Lá fora gatos correm latindo
Perseguidos por pequenos camundongos.
Pulo da cama e grito que te quero.
Sem você
Nada tem sentido!
Nem mesmo meu grito idiota!

                            







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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Minha noite



A madeira na estrada,
a lenha no asfalto,
a fogueira será acesa,
aquecerá a noite amanhã.

E no meu peito faz um frio!

O milharal sob rede elétrica,
o verde sobre terra seca,
pasto para gafanhotos e outros,
uma fazenda urbana.

E no meu peito faz-se um deserto!

A música no ar,
“lenha”, “o leãozinho”,
“louras geladas”, “lambada de serpente”...
“lay your hands on me”.


E no meu peito faz um silêncio!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

In-Cômodo



A mulher abriu a boca; falou – reclamação.
Parecia estar louca; xingou – difamação.
Mas, isso não é o mais grave...
Duro é procurar um lugar pra cagar
E por cruel decepção não encontrar.

A mulher teimou em falar; gritou – reclamação.
Parecia incapaz de calar; vomitou difamação.
Mas, isso não é o mais grave...
Outros fatos mais preocupantes acontecerão,
Péssimas expressões, irritantes termos,
Ela, ele, todos com o tempo esquecerão.
Duro é procurar um lugar pra cagar
E por cruel decepção não encontrar.

Essa mulher não cala; fala, reclama.
Teima em parecer louca; xinga, difama.
Mas, isso não é o mais grave...

De repente tudo parece feder.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Dois poetas



Doses douradas com gelo
Satisfazem um poeta,
Outro poeta suco de laranja.

Uma canção nostálgica
Invade a mente de um poeta,
O outro é sua própria voz.

Letras, palavras e versos
Satisfazem um poeta,
Outro poeta grito no ar.

Letra, música e sons
Invadem um poeta,
O outro álcool e silêncio.


Hipócritas



De todos os tipos – caras
De todos os formatos – faces
De todas as cores – cútis
De todos os disfarces – gestos

De toda felicidade – semblante
De todo sucesso – aparência
De toda falsidade – semblante
De todo fingimento – aparência


Toda realidade nos olhos.


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Retraído



O que me seduz em você...
   boca
      olhos
         risos
            olhares
mãos
   braços
      toques
         abraços.
O que se torna retraído...
   beijo – distância
   olhos – olhadela
   risos – arrebatados
   olhares – bruscos
      mãos – lonjura
      braços – separados
      toques – acaso
      abraços – eventuais
O que me enlouquece...
   tua boca e a minha distantes
   teus olhos e os meus ansiosos
   teus risos e os meus bisonhos
   teus olhares e eu cego
      tuas mãos e as minhas entorpecidas
      teus braços e os meus paralisados
      teus toques e eu intangível
      teus abraços – eventuais.




segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Busca minuciosa



Assoviando uma bela canção
Mentindo ao meu próprio coração
Observando um espaço na escuridão
Relembrando uma triste ilusão

Andando nessa longa avenida
Memorizando um soneto e uma frase perdida
Observando e consertando versos da vida
Rebuscando tua triste despedida

Aguardando o teu e o meu despertar
Memorizo e assovio sonetos e canções
O meu sonho é te ver  voltar
Revivermos insaciáveis paixões.



PPP




Puxa!
O padrão é permanente,
Para poucos para.
Sigla é Pigla!
De onde vêm tantos pês?
Pés pela cabeça,
Pentelhos, pelos, cabelos.
Um “q” atrapalha a sigla,
O projeto não politiza,
Então digo com “q” que
Puta que pariu puxa!
Põe, pula, penetra.
Pica...

                   (Majal-San)

                   09  05  2006


A gata





Ela não tinha nome.
Comportava-se pacientemente
Ao barulho da faca na pedra de amolar,
Eu nunca falei da sua habilidade.
Assassinaram a pobre e magra felina.
Crueldade!

Hoje não posso escrever, meditar...
Pois o barulho dos ratos nas panelas,
No saco de lixo, nos papéis amassados,
Esse barulho chega a me incomodar.
Parece que os roedores estão arrastando o fogão.
Maldade!

Que saudade da magra felina!
Hoje a casa é quartel general
Para um exército de camundongos e baratas.
Assassinaram a magra e eficiente felina.
Eliminaram a habilidosa e magra felina.

Total crueldade!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Multidão





Passos divergentes,
Diversos pés,
Diferentes olhares,
Cabeças cabeludas,
Cabeças peladas,
Cabeças inteligentes,
Cabeças vazias...
E a minha cabeça tonta
Gira à tua procura.
Naquela multidão
Procuro o teu sorriso,
Os teus olhinhos,
E o movimento dos braços
Pra frente, pra trás,
São tantos braços...
Braços curtos,
Braços longos,
Braços negros,
Braços brancos,
Mas, eu quero apenas
Os teus braços quentes,
Mornos talvez...

         

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Impertinência





                     Naquela mente articulavam-se planos ecléticos para um breve futuro. Seus olhos, naquele momento, observavam apenas a infinita estrada que à sua frente apresentava-se. Seus lábios cerrados e o semblante birrento mostravam a ira que trazia há tempos.
                   Seu corpo ocupava desconfortavelmente uma das poltronas de um transporte coletivo, transporte esse que o conduzia todos os dias ao seu local de trabalho. Aquele rapaz, de certa maneira, num desses trajetos à empresa na qual trabalhava, deixou transparecer um de seus desejos diversos, ou um de seus planos mutáveis que até aquele momento era oculto; desejava ele no seu transporte, em alta velocidade, capotar por diversas vezes e depois explodir. Todos ao conhecerem seu desejo absurdo passaram a repudiá-lo.
                   Numa quinta-feira fria de agosto, naquele labirinto de concreto que era a sua cidade com prédios imensos, cheia de antenas e redes elétricas, numa longa avenida congestionada, com buzinas atordoando os tímpanos, vinha lentamente um coletivo lotado e nele havia um rapaz ranzinza, solitário, sentado desconfortavelmente numa poltrona. Parecia nesse momento que o coletivo encontrava-se vazio, pois, nenhum ser humano dirigia-se àquele solitário desconfortável da poltrona dianteira. Em sua mente com certeza passavam planos ou desejos macabros.
                   E de súbito, ao tentar cruzar a linha férrea, aquele coletivo foi atingido violentamente pelo trem cruel; pedaços do ônibus espalharam-se naquela extensa avenida.
                   – Todos mortos! – Disse um dos curiosos que ali observavam o acidente. Depois que muito analisaram, um sujeito foi visto desconfortavelmente levantando-se do esgoto, era ele, sujo e resmungando:
                   – Vou chegar atrasado, droga!



                                                                           (Majal-San)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Retorno II





Cadê você além do poema?
Aonde vais além da escrita?
Reviverás nos meus traços?
Nascerás outra vez à minha visão?
Estarás novamente em meus versos?
Iludirás outra vez as minhas rimas?
Revolverás novamente os meus rascunhos?
Onde poderei te encontrar?


Retorno





            
Estás de volta...
Não sei se tão forte
Não sei se me envoltas
Talvez minha sorte.

Estás de volta...
Não sei se pra sempre
Não sei se visitas
Ou apenas implicas.

Estás de volta...
Não sei se provocas
Não sei se incitas
Ou apenas excitas.

Estás de volta...
Não sei se sou fraco
Não sei se invocas
Ou voltarei ao buraco.


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Meia Década



Observo a maçaneta...
Não a toco
Não tocas
Não giras
Não bate
Minhas ideias também não.

A maçaneta...
A massa
A maçã
A minha futura neta
A maçaneta imóvel
Visita nenhuma.

A tua – espero.
À tua espera.
A minha – esperas.

Observo a maçaneta
Sentado aqui a maçaneta
não me observa.